Oficina de recorte, colagem, lambe e zines
Experiências passadas e as novas que estão por vir. Escrito por Pedro Daquer
Olá, gente! Meu nome é Pedro Daquer e estou aqui a convite da querida Luana Góes para contribuir com essa também querida newsletter.
Vim trazer experiências passadas e falar sobre as novas que estão por vir, que foram inspiradas pela Biblioteca de Zines, site maravilhoso criado pela Luana e sua irmã, Luma. Vou começar contando o que eu e minha companheira fizemos ano passado e como conhecer a Biblioteca foi potente demais para nós, na prática e na construção da prática.
Vou apresentar rapidamente a mim e a minha companheira: como já dito, meu nome é Pedro Daquer e trabalho com educação formal e informal há 11 anos. Atualmente estou cursando Pedagogia pela UERJ. A minha companheira, Tatiana Vasconcelos de Oliveira, é pedagoga formada pela UNIRIO e atualmente mestranda pela mesma universidade. Ela trabalha há 11 anos no contra curricular de uma escola, com uma perspectiva de ateliê, baseado em Reggio Emilia junto a uma perspectiva decolonial.
Ano passado (2024), desenvolvemos oficinas de Recorte, Colagem e Lambe-Lambe que aplicamos em uma escola pública no Rio de Janeiro que é de formação de professores, uma de Ensino Médio pública em Magé (RJ), no EJA (Magé), e em um pré-vestibular social que acontece no Quilombo Kilombá, também em Magé. A proposta foi de trabalharmos a criação de novos imaginários para pessoas negras e indígenas a fim de construir um ideário antirracista. Usamos imagens focadas em pessoas negras e indígenas notórias, contemporâneas e históricas, também atrizes e cantores populares e atuais, para facilitar a interação com os mais jovens; paisagens naturais e urbanas e imagens insurgentes, essa última envolvendo artes diversas de pessoas periféricas que coletamos nas nossas andanças físicas e virtuais. Usamos também revistas selecionadas, tomando cuidado com o conteúdo delas para que não desviasse do tema.
Por que esse cuidado? A nossa intenção, com essa curadoria, era de apresentarmos uma grande quantidade de imagens e artes produzidas por pessoas negras e indígenas, com a finalidade de aumentar o repertório desses alunos e, ao mesmo tempo, gerar identificação, aumentar a autoestima deles e possibilitar discussões sobre identidade, pertencimento, território e assuntos afins.
Começávamos as oficinas mostrando exemplos de artistas que trabalhavam com esse suporte, explicando o processo, falando da decomposição e recomposição, dos rasgos e transgressões; mostrando como todo o processo é uma forma barata de realizar arte e de como o Lambe, em essência, é uma arte de rua; como ele é muito usado até hoje, para além da arte em si, como em peças de marketing e para trazer a pessoa amada de volta, em meros 7 dias.
No início das oficinas, geralmente constatávamos que os alunos tinham nenhuma ou pouca experiência com essas técnicas ou não as conheciam, apesar de vê-las muito, já que são bem comuns nas cidades que atuamos. E então, com a mão na massa, havia todo um esforço de não os deixar cair em tentações como recortar só imagens inteiras e colá-las uma do lado da outra ou só usar palavras inteiras recortadas; o tempo todo íamos orientando e mostrando possibilidades além de “trabalhos bonitos”.
Procurávamos instigá-los a refletir sobre as imagens que selecionavam, remexíamos as que estavam dispostas nas mesas, observávamos o que estava sendo feito e procurávamos imagens que conversassem com aquelas selecionadas por eles. Todas essas intervenções eram discutidas antes, durante e após as oficinas. Eu e Tatiana sempre buscamos conversar muito sobre essas intervenções a fim de entendermos o que poderíamos fazer para estimular ainda mais a transgressão daquelas imagens para a composição de novos imaginários.
Chegada à finalização das composições, vinha a parte do Lambe-Lambe que era sempre muito divertida para a gente e para eles. E, em todos os casos, conseguimos colar dentro do próprio espaço; um ato que valoriza ainda mais a criação deles, ajudando também no fortalecimento da relação com o espaço educacional.
A gente trabalha com arte na educação por acreditar que esse é um meio de trazer discussões importantes e difíceis para um campo sensível; mostrando a potência dela na elaboração da vida. Foi muito comum nessas experiências, aqueles alunos que, por diversos motivos, pareciam desinteressados no início, mas acabavam se empolgando e realizavam obras fantásticas, com elaborações interessantes e feitas com muito esmero. Para esses alunos muito do que faltava era só oportunidade e suporte para se expressar. Geralmente a arte na educação é subestimada. Nos cursos de pedagogia é bem pouco vivenciada, apesar da sua enorme potência. O comum é termos apenas uma matéria dentro de toda a grade que aborda esse tema, e todas as outras matérias carecem de diálogo com ela. E caramba, a arte é algo intrínseco ao ser humano. Como educar sem arte?
Eu sou novo no estudo da arte. É um campo que a minha companheira tem muito mais estudo e experiência prática. Ela tem uma grande importância para mim nesses estudos e como inspiração; ela realiza trabalhos belíssimos e sensibiliza os seus alunos de uma forma que nunca testemunhei antes, é algo emocionante. Por isso deixo aqui registrado como esse nosso trabalho conjunto é fruto do trabalho dela, da sua elaboração de mais de dez anos de prática de ateliê na escola. E para além do trabalho, é fruto dela em si. Tudo que ela é, está nessa prática.
Contei essa experiência para, além de compartilhar essas práticas com vocês, abordar a importância do suporte como meio fundamental para a arte. Por que digo isso? Recentemente conheci a Biblioteca de Zines quando passeava pelo Bluesky vendo uma repostagem sobre ela. Aí fiquei “Caramba, zines! Não vejo isso faz tempo!” Entrei no site e, cara! Que zines tem lá!
Desde o final do ano passado voltei a desenhar. Digo voltei não porque desenhava direto em algum momento e parei. Mas porque todos desenhamos desde criança, apenas param de nos estimular quando saímos da educação infantil e entramos no fundamental, porque aí temos que ser alfabetizados; como se uma coisa não tivesse a ver com a outra. E, quase que imediatamente, procurei um vídeo de como dobrar o papel para fazer uma zine, e comecei a produzir uma zine sobre como produzir uma zine e, durante o processo mostrei para minha filha (que desenha muito diga-se de passagem) e... que mágica!
Há tempos eu tentava desafiá-la a desenhar outras coisas além do que ela tem costume (personagens de anime, geralmente em retrato), quando eu dobrei o papel para ela fazer uma zine e explicar um pouco sobre, ela produziu uma história muito maneira e com desenhos bem diferentes do que é acostumada. E logo depois fez mais três histórias. Mágica? Encanto, formato e suporte!
Logo depois mostrei para o meu enteado e pronto, o encanto outra vez. Aquilo foi um estalo e logo contei para minha companheira, ela gostou demais da ideia e começamos a elaborar formas de aplicar isso no ateliê dela na escola e nas oficinas que vamos começar no pré-vestibular social do Quilombo Kilombá. E assim que tivermos iniciado vou documentar melhor do que fiz ano passado e trazer para vocês aqui.
Mostrei para todas as minhas amigas da educação; reforçando para elas a importância do suporte, contando essa história que conto para vocês. Foi algo muito impactante para a minha prática como educador, artista e arte educador. Por isso agradeço demais as idealizadoras do projeto da Biblioteca de Zines, assim como aos artistas que compartilham suas obras lá. Todos vocês foram muito importantes para esse fomento. Continuem.
O suporte, meus amigos, é fundamental.
Escrito por Pedro Daquer
Realização: Luana Góes
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